Review

O Mordomo narra a vida de Cecil Gaines (Forest Whitaker) desde a sua infância nas plantações de algodão em Macon, Georgia, até a sua ascensão ao cargo de mordomo da Casa Branca. Passando pela administração de 7 presidentes, o filme relata os principais acontecimentos de décadas conturbadas da história dos Estados Unidos da América como o Movimento pelos Direitos Civis, a Guerra do Vietname e o assassínio de John F. Kennedy e de que maneira estes influenciaram a sociedade Americana e mudaram o curso da sua história.

No ano de 2014 serão celebrados os 50 anos do “Civil Rights Act” de 1964 nos EUA. O filme de Lee Daniels escrito por Danny Strong pretende, sem sombra de dúvida, iniciar a discussão sobre o tema da luta pelos direitos civis com um resultado algo desconcertante. Embora Strong tenha se inspirado na vida de Eugene Allen, o verdadeiro mordomo da Casa Branca, o foco do filme não é, efectivamente, a biografia. Aliás o uso do termo “inspirado” é proposital, isto porque do mordomo de carne e osso pouco existe no seu duplo ficcional. O motivo desta adaptação se torna claro a medida que assistimos ao desenrolar dos acontecimentos. Desde muito cedo é possível perceber que o filme é sobre racismo. Mas o mais curioso é que a própria construção da narrativa deixa um estranho sabor racista.

O Movimento pelos Direitos Civis Afro-Americano foi complexo, tendo alguns autores considerado que este esteve subjacente à história dos Estado Unidos desde época muito precoce. Exactamente por esta complexidade, o projecto de Daniels é extremamente ambicioso e a causa maior do fracasso parcial da sua tentativa. Apesar de ter sido efectivamente uma maioria negra que se manifestou e sofreu o impacto destruidor da intolerância, do preconceito e da violência, é ignorada quase por completo a participação de brancos neste processo. O que o filme apresenta é uma imagem distorcida e preconceituosa e uma dicotomia limitada e incorrecta, de brancos como os vilões máximos e negros como vítimas indefesas. De modo algum põe-se em questão os horrores que o racismo provocou e muito menos a vitória suprema dos direitos humanos com o “Civil Rights Act”, no entanto, onde estão todos os caucasianos que arriscaram as suas vidas em prol do Movimento? Onde estão Viola Liuzzo, Virginia Durr, Grace Lorch, James Zwerg, James Peck entre muitos outros? Onde estão os diversos presidentes que defenderam a legislação que permitiu a igualdade de direitos? Aparentemente nem sequer existiram ou são mencionados de forma discreta. Não contente com esta manipulação dos factos, Strong recorre ao melodrama com uma das afirmações mais chocantes do filme, pronunciada por Gaines, considerando a situação dos negros nos EUA similar ao que se passava nos campos de concentração na Alemanha Nazista. Embora efectivamente muitos tenham perdido a vida durante o Movimento e não existam números efectivos de vítimas, sabe-se que estão nas dezenas de milhar enquanto o número de mortos nos campos de concentração nazistas tenha ascendido, aproximadamente, aos 11 milhões. Dessa maneira a comparação além de inadequada, é incorrecta.

O mais desconcertante é que, por si só, a vida de Eugene Allen teria resultado em um excelente filme. Mas a alteração quase total da sua história de modo a se encaixar num molde idealizado pelo argumentista e pelo director criou problemas graves na fluência e veracidade dos acontecimentos em prol de uma versão ficcional e facciosa.

Embora todas essas questões influenciem grandemente na apreciação do resultado final, O Mordomo apresenta um elenco magnífico e interpretações extremamente fortes. Forest Whitaker está estupendo como Cecil Gaines e Oprah Winfrey deixa claro o seu talento ao interpretar sua esposa Gloria. A história da família, que se desenrola em conjunção com os problemas político-sociais, confere um cariz inegavelmente humano ao filme. Momentos de humor alternam-se com intensos episódios dramáticos trabalhados magistralmente pelos actores conseguindo distrair momentaneamente o espectador dos inúmeros problemas do argumento.

Outro aspecto muito interessante é a possibilidade de poder vislumbrar o funcionamento interno da Casa Branca. Observamos a vida política e a intimidade dos presidentes e suas famílias pelos olhos dos criados, dos quais fazem parte Cuba Gooding Jr. (Carter Wilson) e Lenny Kravitz (James Holloway) ambos com excelentes interpretações. Destaca-se a prestação de James Marsden que está excepcional no papel do Presidente John Kennedy.

O Mordomo não pode ser considerado um mau filme mas é pouco equilibrado. Se ignorarmos o aspecto histórico e todas as suas deficiências, o filme acaba por ser sustentado por um grupo de actores cuja excelência compensa, em parte, os problemas do argumento. No entanto, como é praticamente impossível separar os factos históricos da própria vida das personagens, o resultado final fica irremediavelmente comprometido. Mesmo assim o filme é bom o suficiente para que saiamos do cinema satisfeitos e ainda tenhamos o prazer de ouvir a banda sonora original composta por Rodrigo Leão.

Estreia dia 05/09.

VN:F [1.9.22_1171]
Rating: 9.5/10 (4 votes cast)

O Mordomo, 9.5 out of 10 based on 4 ratings



About the Author

Juliana Carvalho